BERNARD PETIOT

«O atleta que vem para o Cirque du Soleil deve continuar a querer ir sempre mais longe. Porém, ao contrário do seu meio competitivo de origem, no Cirque du Soleil, ele deve fazer isso em colaboração com seus colegas. Cada um deve fazer sua parte em interdependência com os outros. Pois, em última análise, para nós no Cirque, quem deve sair ganhando sempre é o espetáculo.»

  • BERNARD PETIOT
  • Montreal
  • Vice-presidente, Casting e Performance

Após ter descoberto muito jovem a ginástica artística, Bernard deixou sua paixão o levar até o circuito universitário canadense onde obteve vários títulos, incluindo o de atleta do ano na Universidade Laval, na cidade de Quebec, em 1975. Em seguida, em colaboração com um de seus professores, ele fundou o Clube Salto na cidade de Quebec e organizou a estrutura do programa de ginástica feminina, do qual foi treinador durante oito anos.

Ao terminar seu mestrado, Bernard foi recrutado pelo reputado Clube Gymnix de Montreal para comandar o programa de ginástica de alto nível, ao mesmo tempo em que continuava a ensinar na Universidade de Montreal. Em 1997, como parte do programa nacional de certificação de treinadores canadenses, ele criou um programa de formação de treinadores de alto nível para o centro nacional multiesportivo de Montreal. A carreira de treinador de Bernard foi prolífica: além de 13 participações em campeonatos do mundo, ele formou quatro atletas olímpicos --o maior total para um treinador quebequense.

Em 1998, o Cirque du Soleil contratou Bernard para assumir a direção do estúdio de treinamento, isto é, dirigir a formação dos artistas acrobatas como também o enquadramento dos treinadores e do pessoal médico.

Como vice-presidente do Casting e de Performance, qual é o seu papel no Cirque du Soleil?
Eu sou responsável pelo Casting nas áreas artística, circense e esportiva. Tenho também a responsabilidade e a direção do enquadramento do treinamento, dos programas de formação, dos terapeutas de apoio à saúde dos artistas e dos especialistas na concepção e na inovação em performance humana de caráter física e acrobática. Eu sou responsável pelos recursos, infra-estruturas e mecanismos necessários para alcançar nossos objetivos tanto para os espetáculos atualmente em cartaz quanto para as novas criações.

Qual o lugar ocupado pelos esportes no Cirque du Soleil?
Os esportes têm um lugar muito importante, pois a metade de todos os artistas-acrobatas do Cirque du Soleil provém dessa área de atividades. Além disso, uma parte da reputação e da assinatura do Cirque du Soleil está baseada nas grandes competências atléticas e esportivas. Por isso, as disciplinas da grande família da ginástica são as que contribuem mais. As competências acrobáticas adquiridas nos esportes nos permitem nos aventurar mais rapidamente em performances, com mais profundidade e correndo riscos calculados que enriquecem a abordagem tradicional de circo. E isto se dá tanto do ponto de vista psicológico quanto dos pontos de vista técnico e físico.

Qual é a abordagem adotada pelo Cirque vis-à-vis seus artistas?
Nós temos duas abordagens diferentes. Com os artistas oriundos do mundo dos espetáculos como, por exemplo, cantores, músicos, palhaços e atores, existe muito respeito. Eles são profissionais que chegam com uma grande bagagem artística e capacidades e, por isso, nós os tratamos como tal. Nosso papel consiste em assegurar a passagem de sua experiência para o contexto do Cirque du Soleil.

Quanto aos atletas, a chegada deles ao Cirque du Soleil significa que uma decisão de reconversão de carreira foi tomada. Então, devemos respeitar sua bagagem, mas também considerar que ela é insuficiente para satisfazer ao conjunto de nossas necessidades tanto de um ponto de vista acrobático quanto dos elementos específicos ligados ao espetáculo (a presença no palco, por exemplo). Por isso, oferecemos a eles os elementos de aprendizagem necessários para que esta transição aconteça da melhor maneira possível.

Como o Cirque du Soleil guia os artistas em sua transição para um espetáculo?
Existe uma infra-estrutura completa para isso. Em primeiro lugar, uma equipe de acolhida ajuda o artista a organizar sua vida em Montreal, onde está situado nosso estúdio de treinamento. Em seguida, oferecemos ao artista uma formação que consta de três aspectos: acrobático, artístico e pessoal-profissional. Diferentes especialistas se encarregam de cada um desses aspectos, o que permite ao artista progredir em seu programa.

No momento em que começa a trabalhar com o Cirque du Soleil em Montreal, o atleta se torna um artista-empregado. Neste sentido, ele deve assumir a responsabilidade dos elementos de seu desenvolvimento artístico; por isso, ele deve se adaptar para fazer coisas com as quais não está acostumado. Uma parte de criatividade deve vir do indivíduo através de seu investimento e das suas tentativas e erros.

A mistura de nacionalidades representa um desafio?
O maior desafio é a comunicação: entender o artista, se fazer entender por ele e fazer com que ele se entenda com seus colegas. A solução está na aceitação das diferenças culturais. Nosso trabalho é fazer de nossos artistas pessoas que assumirão um papel ativo no Cirque du Soleil. Isto é, conseguir exteriorizar a cor e os atributos específicos da personalidade e da cultura de cada um.

Qual o conselho que você daria a um candidato que sonha de participar da aventura do Cirque du Soleil?
Ele não deve criar barreiras ou idéias preconcebidas, porém demonstrar sua abertura. A melhor maneira para isto é de se informar, por exemplo, visitando o site do Casting, aprendendo sobre a empresa, assistindo aos DVDs de nossos espetáculos e, eventualmente, nos enviando sua candidatura. Na verdade, ele deve se abrir para descobrir o Artista dentro de si próprio!