Boris Verkhovsky

Logo cedo, como atleta de elite da Equipe Nacional Masculina da Rússia em Acrobacias, Boris Verkhovsky percebeu que sua paixão era muito maior como treinador do que pela atuação. Graduado pela Byelorussian State University em Educação Física, com especialização em treinamento, ele imigrou para o Canadá em 1978, quando precisou adaptar, rapidamente, o seu estilo de treinamento ao ambiente esportivo amador do país. Muito bem sucedido nessa área, ele trabalhou incansavelmente até se tornar o Treinador Líder da Equipe Nacional de Trampolim e de Tumbling do Canadá quando, em 1993, foi procurado pelo Cirque du Soleil para fornecer uma consultoria sobre um ato proposto de tumbling para o show residente Mystère, em Las Vegas.

O grande conhecimento de Boris na área de acrobacias logo impressionou a todos envolvidos no Circo. Primeiramente contratado como Treinador Líder do Departamento de Treinamento Acrobático, sua função, durante os anos, cresceu até tal ponto que, hoje em dia, como Diretor de Atuação e Treinamento Acrobático, dirige a atribuição, o desenvolvimento e a administração das equipes de treinadores, ensinando-os a selecionar estratégias e a criar intervenções e metodologias de treinamento para fornecer suporte às necessidades atuais e futuras do Circo. Usando todo seu conhecimento e experiência, ele também contribui diretamente para a concepção dos números acrobáticos dos shows em criação.

  • Boris Verkhovsky
  • Montreal
  • Diretor de Acrobacias e Treinamento

De que forma você conduz um atleta nessa transição do mundo esportivo até que ele se torne um artista na arena?
“O elemento mais importante é assegurar que a pessoa esteja totalmente confortável com o conceito de que estará evoluindo naquilo que já concluiu. Dizemos a ela: “você atingiu resultados surpreendentes, desenvolveu uma fantástica série de habilidades, então, agora vamos usá-las, mas de forma diferente e em um ambiente diferente”.

O pensamento moderno, no aprendizado complexo da modelagem, é de que a conveniência de aprender não deve se tornar um objetivo. Portanto, começamos agora o processo de introdução ao ambiente complexo: os elementos acrobáticos e artísticos estão presentes no aprendizado. Quando os artistas chegam a Montreal, logo iniciamos os workshops artísticos. Mas, é claro, também apresentamos os elementos acrobáticos logo no início. Sempre que há uma oportunidade, mesclamos os dois. Em um ambiente ideal de treinamento, os dois elementos devem estar sempre presentes.

O desenvolvimento psico-profissional também é muito importante para nós. Como o Circo é um ambiente muito diferente, o psicólogo de atuação ajuda a reformular as atitudes, o foco e o comprometimento dos artistas. No mundo dos esportes, você se acostuma a treinar muito e a atuar menos. No nosso ambiente, acontece o contrário; o treinamento é limitado, pois se exige muito do físico, mas as atuações são muitas. Sendo assim, a atuação acaba se tornando uma forma de treinamento. Ao mesmo tempo, você tem uma responsabilidade com o público: a sua atuação não pode ser percebida como "apenas" um treinamento.

Qual o maior desafio com que um atleta deve esperar lidar quando chega ao Cirque du Soleil?
“O atleta que vem de um nível inferior da elite – como a maioria das pessoas que chegam até nós – está acostumado com um ambiente em que conhece todos os aspectos – internos e externos. Mas, na hora do jogo, essa descoberta é limitada. Você é mestre naquilo que faz. Você desenvolveu a capacidade de atuar naqueles poucos momentos durante o ano, ou seja, nas competições.

Quando você chega ao Circo, o elemento da descoberta é grandioso. Nós colocamos os atletas em um ambiente diferente. Eles atuam de 9 a 10 vezes por semana. Eles fazem as atuações em equipamentos que nunca viram e nem usaram. O elemento artístico permite que eles, de forma gradativa, aprendam que atuar não é apenas fazer truques; atuar é trabalhar para o público. As habilidades acrobáticas são uma das ferramentas usadas para gerar emoções. O elemento da descoberta é surpreendente por fazer parte disso”.

Como você poderia descrever a sua filosofia criativa?
“Você deve ter a idéia inicial de que 'tudo é possível'“. E isso está na base de todo processo de criação, seja quanto ao ambiente de treinamento, ao desenvolvimento de um ato ou ao desenvolvimento de uma habilidade, só para mencionar alguns exemplos. Se você pensar que "É impossível", está contradizendo a inovação e a criação.

Em contrapartida está o fato de que precisamos ser inteligentes e lógicos. Quando nós criamos, o risco de sermos levados pela paixão e a novidade é muito alto. Aquilo que criamos deve ser sustentável e fornecido de forma consistente, aproximadamente por 350 vezes por ano em um show de turnê e 450 vezes em um show residente.

As acrobacias são uma forma de expressão e não uma finalização apenas. Elas ajudam a gerar aquele efeito impressionante, e é isso que as pessoas querem ver quando vêm ao Cirque du Soleil. Mas esse efeito pode aparecer de diferentes maneiras. As acrobacias fazem parte do vocabulário, ao contrário dos truques, mas elas não são a única forma de impressionar”.

Que papel você acha que os acrobatas têm nos shows do Cirque du Soleil? De que forma eles se adaptam nesse contexto?
“Os acrobatas são partes fundamentais do Circo. A atuação humana é o ponto central da visão de Guy Laliberté ao criarmos um show. Esse aspecto físico da atuação e da habilidade humana torna-se um elemento muito importante. É o elemento central. Sem a maravilhosa coreografia, as fantasias curiosas, a bela maquiagem, a música fenomenal, a fantástica iluminação teatral e a cenografia impressionante, os acrobatas não agem. No entanto, sem os acrobatas, parece que algo está perdido. É por isso que, no Circo, cada elemento acrobático, ou intenção de um elemento acrobático, deve ter muito estilo”.

Que conselho você daria a um futuro artista do Cirque du Soleil?
“Não é fácil. É exautante. É uma oportunidade de se unir à profissão. Se exige uma grande quantidade de esforços físicos, psicológicos e emocionais. Mas trará recompensas de maneira que você jamais viu em um esporte. Trabalhar para o público, e não para os juízes, é outro mundo; é um mundo maravilhoso”.