
- David Shiner
- Montreal
- Diretor e palhaço

Qual é sua abordagem com os palhaços nos projetos do Cirque du Soleil dos quais você fez parte?
Procuro encontrar pessoas que sejam talentosas e engraçadas, interessantes na forma como se movem, que tenham rostos interessantes, e eu os ajudo a desenvolver seu potencial. Eu ensino coisas como ponto fixo, como desenvolver um personagem e um senso realmente bom de ritmo e tempo, como improvisar com o público, etc. Dou aos palhaços com os quais trabalho muito das coisas básicas que aprendi nesses últimos 25 anos.
Normalmente, as pessoas nascem como palhaços, isso não é uma coisa que você pode estudar e aprender. Você pode aprender certas técnicas, mas você é ou não é engraçado. Então eu sempre tento encontrar pessoas que têm algo de engraçado. Se elas são engraçadas, deve haver alguma maneira de explorar essa coisa engraçada e fazê-la trabalhar a favor delas. Estou sempre procurando por alguém que tenha uma ótima técnica ou grandes habilidades de movimento ou talento para o pastelão. Só estou procurando por alguém que seja engraçado. A partir daí podemos começar a ensinar as técnicas.
Todos os estilos diferentes das técnicas de "clown" (russa, americana, européia) podem funcionar, mas temos que modernizá-las para o público atual.
O que você acha de desafiador e estimulante em trabalhar com palhaços de diferentes formações?
Dar a eles todo o meu conhecimento. Como mentor, estou lá para ajudá-los a aprender as coisas rapidamente. Quando olho para minha carreira, gostaria de ter tido um mentor, mas aprendi as coisas sozinho.
Eu os ajudo a encontrar um estilo. O que faz você engraçado? O que vai fazer com que você se diferencie de outro palhaço? Ensino aos palhaços a importância de se usar o corpo, na comunicação, sem a linguagem. Porque alguém que aprenda como estender sua energia e acessar o centro de sua criatividade pode andar por um palco, fazer pouca coisa e ser muito interessante de se assistir.
Qual é sua filosofia criativa?
Como diretor ou como mentor, é tentar ajudar as pessoas a encontrar suas fontes de inspiração e criatividade. Ajudá-las a sair da mente, se envolver no corpo e na respiração. Aprender a confiar em si, em suas idéias, acreditar em si, ter confiança. Ajudá-las a celebrar a alegria da atuação; o sentido mais puro da felicidade tirado do fato de estarem em um palco representando para um público. Respeitar a si mesmo e aos outros atores, aprender a se doar intensamente e fazer o público feliz. E o mais importante, saber quem você é: descobrir quem você é como artista, qual é a sua mensagem e porque você está lá. Sabendo disso, o resto é fácil.
Que papel você acha que os palhaços têm nos shows do Cirque du Soleil ?
Principal. Sem um palhaço em um circo, não há circo.
Como a arte do "clowning" e o Cirque du Soleil se misturam?
O Cirque tem uma grande tradição de sempre possuir bons palhaços. O lugar que eles têm em um show depende do diretor. Como diretor, visto que sou um palhaço, eles têm um papel principal. Ele é o personagem que nos conduz pela noite.
O palhaço é o personagem que tem a conexão emocional mais profunda com o público. Todos os artistas têm uma conexão profunda com o público, mas o palhaço realmente nos dá um senso da nossa humanidade, porque ele é um tolo, ele está fazendo o papel de um tolo. Ele está revelando nossa fraqueza emocional e está nos permitindo rir de nós mesmos. Grandes palhaços sempre foram amados porque eles nos permitem rir daquelas partes de nós mesmos que mais tememos e das quais mais temos vergonha. O palhaço nos ajuda a nos aceitar como somos.